segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sessão de esclarecimento - HOJE


Convocatória AGEFILUM ordinária - Dia 9



II Jornadas da Cultura





Em 2004, o Cardeal Joseph Ratzinger, Perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no
decurso de uma conferência sobre a Europa, abordou uma pergunta de sempre: “onde
começa e termina a Europa?”. Terá sentido, no tempo presente, falar do sentido da Europa?
Existe uma identidade europeia? Se sim, quais são as suas marcas, as suas raízes? O que se
deseja para a Europa? Estas são algumas questões que se deseja ver em debate nas II
JORNADAS DA CULTURA.
A Europa de hoje já não é seguramente a Europa que proporcionou a união de povos tão
diferentes como o eslavo e o latino, o saxão e o germano, o grego e o viking. Agregou num
projecto único a razão dos gregos, o direito de Roma e o amor de Cristo. Uma civilização que
escreveu a história a partir de três fontes: Logos, Ius, Charitas. Estas são as nossas raízes, as
mesmas que permitiram lançar a democracia, falar de tolerância, inflamar a solidariedade e
promover a afirmação de uma identidade plural.
Esta história tem um passado concreto, nomes específicos: é a Europa de Átila, de Carlos
Magno, de Carlos V, a Europa que venceu, pelo ânimo de Bento de Núrsia, os povos bárbaros
e que viu, a partir de então, povos a unificarem-se, mediados pela criação de um mesmo
espaço cultural que a fé cristã soube consolidar. Esta Europa, síntese do Ocidente e do
Oriente, soube superar as suas fronteiras geográficas e instalar-se para além do Atlântico.
Ao olhar para as suas raízes, percebemos que o cristianismo não só é a raiz da nossa cultura,
como é a fonte que fecundou as mais relevantes realizações culturais e sociais. Os monges
não ensinaram somente a arte de trabalhar as terras e a fertilizar regiões inteiras, ou a copiar
os códices e a construir Igrejas, a eles se deve o ensino das artes e das letras, do canto e do
encanto pelo fascínio, pela beleza.
A Europa foi-se construindo e, pouco a pouco, fortalecendo os laços que a unia: a cultura, a
moral, os estilos artísticos, os modos de vida, etc. Todavia, todas as épocas têm momentos
frágeis e a Europa passou por alguns desses momentos históricos: entre outros, a divisão
entre católicos e protestantes, a segmentação entre tomistas e nominalistas, o pensamento
ilustrado que manteve no centro do seu combate a religião, as ideologias totalitárias e
nacionalistas que provocaram verdadeiras catástrofes humanas e que mais não visavam do
que o desenraizamento da dimensão religiosa da vida humana.
De modo a fazer frente a estas catástrofes e a uma certa frustração das democracias liberais,
a velha civilização pedia a construção de um novo espaço, de um novo edifício político-social,
em que se valorizasse a pessoa humana. E uma vez mais, a estrutura que cimentou esse
projecto unificado foi o cristianismo.
Desde o início que De Gasperi, Monet, Schuman e Adenauer entenderam que a Europa teria
que ser algo mais do que uma simples agregação de recursos económicos e de
procedimentos burocráticos, geridos por instituições mais ou menos consolidadas. Tratava-se
de reconhecer o espólio de valores culturais, religiosos e de pensamento político adquiridos
ao longo de séculos de história comum. Nada mais se pedia à Europa que não fosse olhar
para o ser humano como um todo, integrado numa história que não o encerra em si mesmo,
mas que o abre para o outro e para a transcendência. Só quem olha para atrás é que se
depara com a sua história, sabe de onde vem e, em última análise, quem é.
Surge assim a pergunta: se esquecermos a história das conquistas europeias – a dignidade
humana, a luta pelos direitos humanos, a liberdade de opinião, o respeito pelo sagrado, o
pensamento crítico -, que valores temos em comum que permitam salvar o presente e
projectar o futuro? Como vamos conseguir uma unidade europeia sem cimentos que
sustentem coesões fortes?
Olhemos para a Europa e vejamos a consistência dos alicerces que estão a ser construídos:
ataque à vida, incursão contra a família, confusão ideológica, lassitude moral... tudo em nome
de uma sociedade mais livre, comandada pelo poder político e subjugada ao poder
económico.
Posto isto, julgamos ser oportuno dedicar as II JORNADAS DA CULTURA a tentar perceber
qual o sentido da Europa moderna, por onde vamos ou por onde queremos ir... Queremos
uma Europa aberta e hospitaleira ou caduca e fechada em si mesma?
Gostaríamos de poder interpretar o momento que nos é dado viver, de crise e de situações
limite, como uma oportunidade para a acção, para a reconciliação, para encontrar novos
rasgos, novas soluções que não sejam dominadas pelo primado do económico. Perante tantos
desafios que a Europa nos suscita não existe lugar para posições de centro. Não é legítimo
ficar parado, como também não é legítimo atirar culpas para erros do passado, como que se
de um fatalismo histórico se tratasse.
Há que optar entre a resignação ou o protesto, o esmorecimento ou a criatividade, o silêncio
ou a denúncia. Nós optamos pela última via, porque acreditamos numa Europa mais autêntica,
coerente e com um futuro humanizado.